O que não aparece no currículo
Soraya Mohamedi Mohamed · Ubuntu Canarias · 2 min de leitura
Custa-me muito encontrar currículos de pessoas migrantes, e sobretudo de jovens que chegaram ainda menores, completamente esvaziados. Currículos onde quase não aparece nada.
Muitas vezes pressinto que por trás há muito mais para contar, mas alguém se esqueceu de perguntar. Ou eles próprios ainda não sabem que parte do que viveram e aprenderam pode ter valor num trabalho. E assim fica esquecido justamente o que podia ser o seu ponto forte.
O rapaz dos motores
Lembro-me de um rapaz que tinha aprendido em Marrocos, com o pai, a reparar motores de carro e também a pintá-los. Quando vi o currículo dele, não havia rasto disso em lado nenhum.
Falámos sobre isso e acrescentámo-lo, porque aquilo não era «ajudar o pai». Tinha conhecimentos práticos de reparação e manutenção de veículos, sabia usar ferramentas, tinha trabalhado com motores e conhecia um ofício de que, além disso, gostava.
Depois apareceu outra coisa. Estava a enviar currículos para a hotelaria. Não porque fosse o que queria, mas provavelmente porque lhe parecia o mais acessível. O interesse dele estava nos carros.
Isso abria outro caminho: procurar formação na área automóvel, mecânica, chapa e pintura, de acordo com as suas capacidades e com o que lhe interessasse.
Não sei se vai acabar por trabalhar nesse setor. O que sei é que, se ninguém lhe perguntar o que aprendeu, o que sabe fazer e o que realmente lhe interessa, essa possibilidade nem sequer aparece.
Outras perguntas
Por isso, quando acompanho alguém na procura de emprego, não me basta perguntar «que experiência profissional tens?». Às vezes é preciso perguntar outras coisas:
- O que aprendeste, e quem te ensinou?
- O que sabes fazer com as mãos?
- Em que ajudavas no teu país, ou à tua família?
- Que tarefas fazias, mesmo sem contrato?
- O que gostas de fazer, e o que fazes bem?
- Que ofício gostavas de aprender?
Nem tudo o que tem valor profissional aparece num registo de carreira nem vem com um certificado. Com pessoas migrantes, se só olharmos para o currículo que trazem, podemos deixar de fora uma parte importante do seu percurso.
Muitas vezes a orientação começa precisamente aí, a perguntar pelo que não está no papel.